segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Marcello Mastroianni e a jardinagem

Eu tenho esse cantinho na cozinha onde dá pra colocar micro-vasinhos de flor. Fica simpático, custa R$ 1 no Pão de Açúcar e essa combinação de simpatia e preço irrisório tornam um projeto perfeito para alguém que teve uma compra de R$ 15 não autorizada pelo cartão de débito na manhã de hoje. Indico flores para pessoas com casas desleixadas, mas que gostariam de aparentar o contrário. É como usar bom ar para que a casa fique com cheiro de limpeza mesmo estando um lixo. Você coloca flores e, mesmo tudo estando um caos, as pessoas pensam que você é meticulosa no trato doméstico. Pelo menos espero que pensem isso.
Creio que o segredo da vida seja não tentar ser o ideal, mas dar algum material para que as pessoas de boa vontade pensem bem de você. Tipo aquele colega do Holden em "O Apanhador no Campo de Centeio", que toma um banho por semana, mas mantém as unhas impecáveis. Só isso: concentre-se em manter as unhas impecáveis e as pessoas com alguma boa vontade vão te considerar limpo. Ou concentre-se em ter um gosto musical bonitinho e as pessoas de boa vontade fingirão que você não erra crase. Ou concentre-se em ter um braço de um diâmetro aceitável e seu namorado fingirá que você não engordou cinco quilos em cinco meses. Ou seja, é dar algum argumento para as pessoas que gostam de você. Não vai funcionar com o Holden, mas sua mãe provavelmente ficará orgulhosa.
O problema desses vasinhos comprados em mercado é que eles só florescem uma única vez. Você compra e ele tem flores. Quinze dias depois, as flores vão embora e você tem um vaso de plástico com mato dentro. O fato de custarem R$ 1 e durarem quinze dias teoricamente faria com que essa incapacidade de gerar mais flores não importasse. Acontece que continua sendo uma forma de vida. Não que eu seja vegetariana ou que vegetarianos tenham algo contra matar plantas, mas acho feio jogar uma forma de vida no lixo apenas porque ela não tem mais como me dar prazer estético. Dai eu lembrei do que o Marcello Mastroianni fazia no 8 1/2 com as mulheres do harém dele que completavam 25 anos (era 25 mesmo?): mandava para um andar superior, onde teriam direito a ser bem tratadas e tudo, mas ele não precisaria vê-las. Meu respeito à vida não chega ao ponto de continuar amando e respeitando um vaso de plástico com mato dentro, mas meu sentimento de justiça me obriga a reservar um cantinho escondido para ele.

Juliana Cunha

6 comentários:

Cristine Martin disse...

Oi Juliana,

esses vasinhos são aqueles que dão florezinhas rosa ou amarelas (acho que é kalanchoe)?

Se forem, e se você tiver um cantinho de terra sobrando, experimente plantá-los; eles florescem uma vez por ano, e daqui a alguns meses você terá uma bela surpresa; um desses durou quatro anos aqui em casa, com várias floradas.

Aliás, sua teoria é bem interessante... ;-)

Beijos!

Marcus Gusmão disse...

Plante três grãos de feijão no vaso antes de dormir. Quem sabe assim no dia seguinte acabam seus problemas com o cartão?

Diu Mota disse...

Dar uma de 'pequeno príncipe' em um momento na vida é mais prazeroso...

-ls disse...

Diga que é arte - Natureza Morta -, talvez as pessoas acreditem e a planta-defunta ainda poderá tomar sol e ar fresco!

Arianna disse...

vc até q é politicamente correta pra algumas coisas! que decepção, rss!

Gabriel Cavalcante disse...

É como as revistas velhas da minha avó: todas escondidas na estante de cima do meu quarto.